quinta-feira, 4 de setembro de 2008

Por favor, não votem nesta mulher.

Além do enojante horário eleitoral “gratuito” brasileiro que nos é imposto a cada dois anos, de quatro em quatro anos somos obrigados a agüentar também o horário eleitoral norte-americano, imposto pela imprensa nacional que, por falta do que noticiar neste país sem fatos, acredita que é muito importante para nós sabermos o que pensam os candidatos americanos.
Meu avô, seu avô e o papa Gregório XVI, que teve seu reinado entre 1.831 e 1.846, já sabiam o que pensam os presidentes norte-americanos e a coisa não muda mesmo.
Após seu banho hoje olhe para o espelho e pergunte para a pessoa mais importante da face da terra se você pode esperar alguma coisa diferente de um presidente americano?
Nosso inestimável Apparício Torelly, auto-intitulado Barão de Itararé, disse com muita propriedade:
“De onde menos se espera, de lá é que não vem coisa alguma”.
Pensem com frieza e respondam:
Al Gore, se não tivesse sido fraudado, em oito anos já não teria tomado posse da Amazônia?
Mas o motivo desta crônica foram as palavras da candidata a vice pela situação, ditas na Convenção Republicana:
“Venho de uma família comum, com altos e baixos como toda família”.
Ao dizer algo tão coloquial, essa senhora pôs imediatamente os olhos e a câmeras de seu país e o mundo sobre sua filha de dezessete anos que, solteira, espera um filho.
Pobre garota; o corte de câmera foi tão rápido que deu para perceber que ela corou na hora.
Precisava a citada candidata se desculpar pela gravidez de sua filha? Tinha ela o direito de sacrificar a privacidade da garota em prol de sua candidatura? Ou será que desconhecemos que por trás da adiantada sociedade americana existe uma provinciana comunidade que neste momento está chamando essa garota de, no mínimo pervertida, no máximo, ah, isso só Deus sabe.
Pergunto mais:
Será, em sã consciência, que a filha dela quis ficar grávida?
Não acredito que tenha feito isso de propósito, mas se foi eu pergunto:
Ela tem raiva da mãe, possivelmente muito preocupada com sua carreira política?
Tenho ainda mais uma pergunta a fazer para a candidata:
O que ela esperava que sua filha fizesse no Alasca, senão se manter aquecida?
Eu sempre quis fazer mais por minhas filhas, e não estou escrevendo isto pela certeza que lerão estas linhas. Sempre fizemos, a Elisa e eu, nosso limite mais alto pela dedicação.
Errei na educação delas?
Puxa, errei muito!
Tenho um consolo, todavia: todo pai sempre erra; se prende foi porque não soltou; se soltou foi porque não prendeu, e por aí vai.
Dia desses estava meio abatido por alguns problemas que elas estão passando e minha mulher fez uma declaração estarrecedora:
“-Fofinho, você não é Deus!”.
Vocês certamente se lembram da época - foi quando andei deprimido; essa declaração me surpreendeu em diversos aspectos e, ao voltar à minha condição humana, que eu desconhecia, aprendi com a Elisa, entre outras coisas, QUE NOSSAS FILHAS SÃO SOMENTE AS NOSSAS FILHAS.
Ainda que as crianças tenham no nome Júnior, Filho, Filha, Sobrinho, Neto, são pessoas autônomas, com sentimentos e pensamentos únicos.
Não temos que nos inibir ou envergonhar se a gravidez foi precoce – existe isso? - ou se o casamento não deu certo; é a vida deles.
Se um dia resolveram trocar São Paulo por um adorável restaurante em Recife, paciência, temos que nos conformar com a nossa saudade e viver da forma mais intensa possível os tempos que passamos juntos, sem sufocá-las.
A única coisa que quero passar para minhas adoradas é a sensação de que esta casa é aquele porto seguro que terão aqui em casa.
Podem ir para a Austrália, podem trabalhar em Snowmass, podem viver no Curucutu; daquele portão sempre terão a chave, e do meu coração também.
Portanto amigas e amigos, como temos que acompanhar, querendo ou não, as eleições americanas, peço encarecidamente, em nome dos nossos filhos, não votem na senhora Sarah Palin, vice do McCain.
Não votem no Obama também.
Vamos encabeçar uma desobediência civil, quem saber aí nosso voto possa ser facultativo.

Enquanto isso, aceitam um cappuccino?


Dedicado à minha amiga Cris Marino e ao casal José Antonio e Anete, pela saudade de suas filhas.

sábado, 30 de agosto de 2008

Ao meu irmão Ticão.

Tenho em mim a grande alegria que foi a chegada do Luiz Antonio em casa.
Eu ainda não havia completado oito anos de idade e alguns dias depois aconteceria meu último natal no qual acreditaria ainda em Papai Noel. Oito anos era o limite para essa fantasia e meu aniversário seria no então longínquo mês de Março. Os anos só começaram a passar rápido depois dos dezoito.
Eu também não tinha a menor noção de como nasciam as crianças – quem diria de como eram geradas – e sequer havia reparado na gravidez da Natália.
Ali estava ele sobre uma manta na cama da minha irmã mais velha quando ela chegou e arrebatou o menino e começou a girar com ele, gerando um grande tumulto e desespero nas mães temerosas que a louca atitude pudesse quebrar o pescoço do garoto.
Éramos cinco crianças crescidas ensinando tudo quanto é tipo de traquinagem para o Luiz Antonio – só eu, dos meninos, escapei da praga de ter o segundo nome Antonio em casa – e ele nos retribuía com alegria e ternura, aquela só presente no rosto das crianças.
Minha irmã tocava acordeão e ele, sentado, respondia ao ritmo flexionando o corpinho gorducho para frente e para trás numa incrível sintonia com o andamento da música. Era uma atração para todos que nos visitavam.
Cresceu esperto, cresceu sadio, cresceu amado. Era nosso mascote em todas as brincadeiras, no time de futebol de salão, nos bailes em que descobríamos as delícias de roçar o antebraço na lateral do seio das garotas - sempre de forma sutil para não parecermos desrespeitosos.
Servia de escudo para as broncas como quando resolvemos pintar o quarto e invertemos as cores, pintando o teto de azul e as paredes de branco. Mamãe aplacou a bronca e papai achou até interessante, palavra que usava para dizer que não havia gostado.
A primeira mudança de direção no vento da felicidade veio pela boca de um médico norte-americano que minha irmã trouxe em casa que leu a mão de todo mundo – e errou em todos os prognósticos: minha irmã caçula não casou aos 20 anos, eu não me tornei um engenheiro famoso e, desgraça das desgraças, errou o vaticínio que “se o menino passasse dos quinze anos viveria bastante”.
O Tico, como ainda era seu apelido, saiu feito um rojão da sala e foi chorar na sua cama.
Dois erros: primeiro falar uma bobagem dessa natureza para uma criança, assumindo o papel de Deus e Senhor do Destino alheio. Segundo que o menino não viveu tanto: a morte veio a seu encontro com parcos 47 anos de idade.
A vida passou e o Tico se tornou Ticão e conheceu o amor de sua vida. Não só ele era apaixonado por aquela menina; todos nós éramos.
A paixão por aquela garota órfã - que vivia com uma tia - teve seu enorme problema justamente nessa senhora que lhe impôs um casamento imediato.
Não pode casar por problemas financeiros, o namoro terminou e ele nunca mais namorou ninguém.
Foi quando começou a parte difícil de sua vida e sobre a qual me recuso a falar e mesmo a pensar. Levarei na minha lembrança aquele garoto que junto comigo, só nós dois, enfrentávamos o resto da rua em rachões de futebol, às vezes com o Beto café-com-leite parado no meio das duas pedras ou dois tijolos que se postavam a guisa de trave.
A esta hora ele certamente está sentado à uma mesa colocando a prosa em dia com a Nona, o Zé e a Natália, explicando-lhes por quê cansou desta vida e pedindo algumas explicações que quando estiver do lado de lá também pedirei.
Até um dia meu amiguinho. Deixe os apetrechos para um par de cappuccinos preparados, porque eu tentarei ser bom o suficiente para me juntar a essa mesa um dia.
Enquanto isso vou juntando os pedaços do meu coração que sofreu muito com a sua ida.

quinta-feira, 21 de agosto de 2008

Deus não foi justo

Já havia escrito outro texto para as Olimpíadas, mas resolvi colocar este no ar pela minha revolta pessoal com relação ao resultado do futebol feminino.
Depois de uma campanha muito boa, a melhor entre todas as seleções, perdemos um jogo onde as brasileiras ficaram com a bola nos pés mais de oitenta por cento do tempo e as americanas só desmanchando o que elas faziam.
De repente uma falha e o ouro vai embora para quem não trabalhou de forma merecida.
Aliás, é uma constante no futebol atual: um time tenta criar e tenta fazer e os medíocres ficam lá atrás só desmanchando.
O futebol, diga-se de passagem, está se destruindo. Não tenho prazer em ver mais jogo algum pela mediocridade que reina atualmente nesse jogo.
A Europa nos impõe sua superioridade econômica e impede o Brasil de formar sua melhor seleção nas Olimpíadas por que são medíocres. É só ver que quem chegou às finas da Europa foi a Bélgica que enfrentou a Itália. Se não fosse isso, nem brigar pelo bronze conseguiriam. E amanhã ainda tem mais possibilidades de ganhar por causa dessa regra que o futebol vive: eles vão jogar com duas linhas de quatro esperando uma falha da defesa brasileira. Depois disso será só chutão.
Estou tão chateado que falta vontade de seguir escrevendo.
Então aí vai o texto anterior que eu havia preparado:

O Brasil nas Olimpíadas de 2008.

Tenho que confessar minha grande frustração de infância que perpetua até os dias de hoje: gostaria de ter sido jogador de futebol. Mais que isso: gostaria de ter passado pelo menos uma bola para o Pelé fazer um golaço, de preferência contra a Argentina.
Mas minha asma afastou-me dos campos e a situação financeira de minha família nunca permitiu que me aventurasse a ficar sem trabalhar e batesse bola por aí.
Sempre fui muito alto e não podia jogar na linha com garotos da minha idade e fui relegado a ser goleiro, o que detestava e meus dedos mínimos cheios de fraturar são as lembranças pífias do tamanho do futebol que pratiquei.
Também não consegui treinar num sítio de um príncipe que morava perto de casa que costumava ensinar atirar com Arco e Flecha e Esgrima. Ainda que a própria mulher dele sugerisse que eu poderia ser um bom atleta nessas artes, minha mãe - receosa com mil detalhes - achou melhor eu estudar e pronto.
“Essas coisas de praticar esporte não dão camisa a ninguém e depois ficam como a Aída dos Santos” – dizia ela referindo-se a nossa atleta que, sem técnico, foi abandonada por dirigentes e com o pé torcido saltou um metro e setenta e quatro centímetros e terminou em quarto lugar no Salto em Altura em Tóquio, 1864.
É notório que o Brasil só começou a se importar com seus atletas quando isso passou a ser dedutível do Imposto de Renda.
Acho importante que isso ocorra e não consigo deixar de admirar outra profissão que o pessoal em casa achava que eu seguiria: Narrador de futebol.
Sim, eu não cansava de narrar em voz alta as partidas de futebol de botão que jogava na mesa da sala de jantar, para desespero dos ouvidos próximos.
Talvez Deus quisesse me poupar de dois sofrimentos: Torcer muito e ter que narrar os fatos que se sucedem nos dias atuais:
“Muito boa a participação do atleta brasileiro, chegando num excelente décimo oitavo lugar entre vinte e quatro concorrentes”.
Ou então: “trata-se de uma atleta nova, de apenas 17 anos, que nas próximas Olimpíadas já estará mais madura e poderá concorrer a uma posição melhor que seu décimo lugar”. Tive vontade de lembrar ao moço que a americana ganhadora da prova tinha somente 16 anos e passeou sobre a trave de forma mais segura do que eu ando nas calçadas de São Paulo.
Foi mesmo desesperador ver o Diego cair. Desesperador e inesperado, uma vez que ele sempre me pareceu muito preparado e seguro. Caiu como caíram vários dos melhores e acabou ganhando a medalha que ficou em pé, mesmo fazendo manobras mais simples.
Nada de pedir desculpas ao povo brasileiro Diego, o pais é que deve desculpas a você.
A Shawn tem médico, psicólogo, agente financeiro e professores particulares, além de grandes marqueteiros que prometeram mais do que ela fez. A diferença é que ela não caiu da trave e não chorou ao perder para outra atleta que ela viu ser melhor que ela. Com aqueles olhinhos vivos e dentões da Mônica ela olhou para a adversária com uma frase escrita no seu cenho: “Na próxima vai ter troco”.
Perder faz parte do esporte, você já nos encheu de orgulho como já o fizeram sua irmã, a Daiane, a Camila Comin, a Laís e outros que foram e deram o máximo de si.
Perderam, mas lutaram, sem ficar atribuindo à vontade divina a perda dentro das quadras e campos. Sinto uma necessidade imensa de dizer aos nossos jogadores de futebol que Deus não perde pênalti nem chuta bola raspando à trave; quem faz isso é jogador que não treinou fundamento ou amarelou.
Defendo a integração dos nossos atletas nessas competições, mesmo que um ou outro só tenham ido a Pequim para fazer turismo, para que animem empresas e crianças a participar dos próximos Jogos e quem sabe ainda levar algum para casa.
Agradeço também à China que fez com que eu perdesse ainda mais um pedaço do meu “Complexo de Vira-latas ” ao fazer todas aquelas fraudes na abertura dos Jogos, diferentemente do que foi feito no Rio 2007.
E também por mostrarem que são tão confiáveis na organização como os produtos que contrabandeamos de lá: SUMIR com a vara da Fabiana foi um prato cheio para nossas piadas.
Coitada dessa moça. Ela sabia que tinha chance e estava segura. Esse será mais um daqueles mistérios que só quando estiver face a face com o Criador que terei resposta.

Bem, já que citei o Criador, Ele não foi justo conosco nesta Olimpíada.

sábado, 26 de julho de 2008

Todos os copos sobre a pia

Certas horas eu sinto muita saudade de pessoas que amei e amei muito e que partiram para outro plano, o antigo Céu, da época em que éramos mais simples.
Chega a doer.
Aquele gesto específico, o maneio de cabeça, o calçar de sapatos, a forma de registrar a fotografia, o som da harmônica no final da tarde; são coisas tão peculiares que desisti acreditar que outra pessoa poderá repetir essas atitudes com o mesmo afeto, graça, amor, simpatia.
São perguntas que só descobrirei a resposta do lado de lá.
Como estou sem pressa para essas respostas, vou batendo na minha incerteza e continuamente sou alvejado por teses, teorias e dogmas diversos sobre o assunto.
Respeito muito, ouço com cuidado e, sinceramente, na maioria dos casos, com ceticismo.
Não quero levar a conversa para esse lado, mas sim para o lado da saudade.
Como é difícil conviver com o fato de termos alguém de quem se gosta, morto. Sem eufemismos.
“Por que foi tão moço”, “por que foi tão bem”, “por que tão fora de hora”...
As frases “agora que começava a viver a vida” ou “estava num grande momento” são repetidas continuamente em velórios, reportes do fato, cerimônias fúnebres e deixam um gosto nostálgico e com uma forte desilusão com relação ao propósito humano nesta vida.
Trabalhar com essa subtração é uma arte e estimo que todos consigam de uma forma mais eficiente e eficaz do que a minha maneira: ela é pobre e descontínua.
Tenho comigo a exata sensação de que gostaria de ter dito uma frase a mais, ter feito um carinho mais sincero e intenso, ter ajudado mais financeira e afetivamente a pessoas que amei.
Faltou a última cerveja com o Percival, a minha gelada, a dele sem gelo para não afetar a garganta que o matou.
Sinto-me um menino que perdeu a mão da mãe na feira com relação a essas sensações, apesar dos meus cinqüenta e seis anos.
E ainda tem algo pior: o notório em mim o sentimento que estou cultivando mais algumas dessas pérolas e posso não ter tempo de corrigi-las.
Quantas vezes me queixo de coisas bestas e desnecessárias na vida - que só acontecem quando não tenho preocupações maiores e sérias– me cutucando vinte e quatro horas por dia.
Quando o mês acaba mais cedo que o salário, ou a saúde avisa que precisa de atenção, bobagens são esquecidas, o foco fica tenso e não permite que veja nada além do essencial.
Um dia desses, por exemplo, fui beber água e, surpreso, reparei que todos os copos estavam usados e pousados na pia esperando que a fadinha mágica os limpasse e colocasse de volta no armário.
Fiquei indignado!
Como pode na ter copo limpo?
A primeira reação foi beber diretamente da garrafa.
O que aconteceu?
A garrafa estava vazia e gelando o ar, guardadinha na porta do refrigerador.
Pensei em me abaixar e colocar a boca sob a torneira do filtro para dar alguns goles.
Resmunguei.
Depois de algum tempo absorvi o fato de que na verdade estava indignado por não ter achado o último copo limpo no armário para usá-lo de forma sorrateira.
Lavei todos, pousei um gole de suco num deles e brindei aos meus velhos, à Natália, a todos os que se foram que consegui lembrar enquanto olhava da cadeira postada frente à porta da cozinha um pardal roubar a comida da cachorra.
E pelo menos uma coisa boa tirei disso tudo: acho que um dos motivos de estar tão rabugento
nestes dias está em não saber tratar com essa frustração divina.
A coisa não boa é que parece estarem sobrando outros motivos.

Aceitam um cappuccino?


Ofereço esta crônica ao meu amigo César Tadeu e seu irmão João Primo.

Já havia escrito estas linhas quando soube do falecimento do meu amigo Celsinho.
Meu carinho a sua memória e pesar aos seus.

quarta-feira, 16 de julho de 2008

Perguntas que farei a Deus.


Com o advento do telefone celular somos obrigados a ouvir conversas em elevadores que antigamente eram cochichadas em um quartinho miúdo sob a escada, ou um canto morto da sala onde reinava, garboso, o ébano aparelho de telefone.
As situações que assistimos muitas vezes beiram o ridículo.
Uma das histórias que ouvi foi de uma moça que falava no celular no aeroporto e quando alguém solicitou que ela ligasse para chamar o socorro para alguém que passava mal ela simplesmente respondeu que aquilo era somente uma encenação e que seu telefone não tinha linha.
Celular era uma coisa cara e muita gente se sentia o máximo ao segurar aquele tijolo junto à orelha e falar alto, muito alto, não só para driblar a pouca tecnologia de então, como também para que pudesse ser admirada pelos circunstantes.
Quantas encrencas eu não arrumei no caixa no Banco do Brasil quando deixava de atender uma pessoa que largava os papéis na bancada e ficava falando se achando o máximo. Chamava o seguinte e informava que atenderia a irada criatura quando desligasse o telefone.
Demorei para comprar um telefone desses e hoje só uso em duas circunstâncias: a serviço ou quando saio de casa. Desligo solerte ao final do expediente ao ao regresso ao sacro território caseiro. Entretanto sei que não sirvo de exemplo para nada nessa área por não gostar de falar ao telefone, ainda que exagere vez ou outra.
Voltando ao elevador, hoje ouvi uma frase em meio à balbúrdia que reinava no ambiente, com várias pessoas falando ao mesmo tempo.
Alguém que falava do outro lado nesses fones que parecem um rádio antigo que permite a todos ouvirem a conversa, disse à moça que o segurava que “no domingo ela estava muito gostosa naquele vestido vermelho decotadão e apertado!”.
Fez-se o silêncio!
De rabo de olho percebi que ela corou um pouco com a inesperada declaração.
Como desci no quarto andar não tive tempo de cumprimentar a moça como compensação à minha indiscrição.
Comecei a pensar nas mudanças que vivemos em nossos dias e dos tapas que levei na cara por sugerir as amigas que tive lá pelos treze, quinze anos estavam “radiantes” naquele dia.
Tempos em que minha vida girava em torno da escola e da igreja onde nos reuníamos aos domingos e cuja turma insistia em dançar num sábado na casa do Seu Geraldo e da Dona Edméia, no outro na casa do Nivaldo Panetone.
Quando se conseguia dançar de rosto colado com alguém aquilo era assunto para uma, duas semanas.
Deus abençoe os Beatles e a revolução que eles geraram.
Viva 1968.
Os decotes aumentavam, as saias diminuíam e vivíamos a intensa expectativa do encontro triunfal!
Os tempos evoluíram e hoje estou muito diferente, marcado pelas passagens da vida.
Graças a Deus consigo cultivar minhas boas memórias, todavia me aborrece as marcas das tristezas que, apesar de terem sido em menor número, deixei que ganhassem uma relevância enorme, besta e inútil.
Não sei muito bem ainda o que isso possa significar, mas estou em fase de análise das mágoas.
Está difícil!
Tenho como balizamento o grande ícone da igualdade racial e social americana Medgar Evers que dizia a sua mulher Myrlie: “não adiantar ter mágoa ou raiva de alguém por que certamente aquela pessoa não estaria se importunando ou importando com o fato”.
Ou Lalo Cobalchini que apregoa "não podermos alterar nosso passado, então nos aproveitemos dele".
Quanta bobagem se guarda no coração a troco de nada.
É certo que o cotidiano nos brinda com surpresas nada agradáveis muitas vezes tão intensas que eclipsam até mesmo grandes alegrias.
Vamos supor uma pergunta a um amigo: Como foram seus 20 dias de viagem, por exemplo, pela Sibéria?
É comum que a resposta seja: “Uma maravilha! O vôo foi excelente, comida boa a bordo, receptivo fantástico, um trem maravilhoso, hotel soberbo...”
É nessa pausa que vem meu medo; aí ele reporta uma coisa que não o agradou: digamos que seja a dobradura dos lençóis na Rússia.
São normalmente vários minutos - três, quatro vezes o tempo que gastou falando das oitocentas coisas boas que teve na viagem – narrando aquele único problema que teve na viagem.
Não consigo entender essa situação e creio que só mesmo uma divindade para me explicar o que acontece.
Outro exemplo: O Santos está uma verdadeira droga! Tempos tristes, ou como diria Elizabeth II: “annus horribiles”.
Estava perdendo de dois a zero do Botafogo (!!!) e conseguiu empatar a partida.
Meu Deus, por que eu fiquei tão chateado com o gol perdido no final do jogo que poderia nos ter dado a vitória que não vem a dez jogos?
Embora não seja religioso, não sou descrente e, certamente vou fazer a Deus algumas perguntas caso possa encontrá-lo na eternidade.
Sinceramente gostaria que Ele me fizesse entender alguns mistérios, digamos assim.
Senão vejamos:
1) Como é essa história de três em um na Santíssima Trindade que me incomoda desde minhas aulas no catecismo aos oito anos de idade;
2) Por quê o caroço do abacate é tão grande?
3) Quais são as misteriosas razões pelas quais a Fafá de Belém não canta mais com a voz idêntica a da Gal Costa?
4) Por quê, meu Deus, o Airton Senna tinha que morrer tão moço?
5) Por que ser político honesto no Brasil foi importante só até 2002?

Preciso parar de ser ranzinza, não acham?
Aceitam um cappuccino?

Dedico esta crônica à minha amiga Lucila Pacheco.

quinta-feira, 26 de junho de 2008

Educar ou não educar, eis a questão.

Acredito que boa parte das pessoas que passa dos quarenta anos de idade tenha o hábito de se referir a tempos passados como “Bons Tempos”.
Eu até já comentei que meus bons tempos também incluem meu dia a dia; estou feliz, vivi meu ontem, estou vivendo hoje e tenho a enorme perspectiva de viver alegremente o amanhã.
Algumas coisas, entretanto, acredito que estou perdendo com o passar do tempo; uma delas é a minha crença que a maioria das pessoas continuarão bem educadas. Tenho certeza absoluta que em breve tempo não teremos mais ninguém educado com menos de trinta anos.
Vejo isso, por exemplo, quando saio com o pensamento em relaxar e viver um momento de alegria num restaurante, centro de compras ou mesmo um desses enormes supermercados. Normalmente quando entro nesses ambientes eu sempre vejo como fui cruel na educação de minhas filhas: elas nunca deram um escândalo em público, jamais fizeram birra, choraram alto com manha ou sem manha, nunca deram um pontapé em mim ou minha mulher. Aquele lance do olhar, saca? Como faziam nossos pais? Certamente quem tem mais de quarenta sabe do que eu estou falando.
Eu ouvi uma moça falando para seu filho de aproximadamente três ou quatro anos que berrava a plenos pulmões no Eldorado: “Rodrigo Henrique, você não está sendo racional!”
Para um garoto!!
Será que ele reclamava a altos brados ter sido batizado por Rodrigo Henrique?
Não vejo mais os pais repreenderem seus filhos como crianças!
Quando repreendem...
E quando eles deixam seus filhos para tomarmos conta deles na praia, na piscina do clube, no parque, nas festas?
Reencontramos amigos para um bate papo e aquela criança para a qual num instante qualquer de muita infelicidade demos um pingo de atenção fica nos puxando a calça ou vestido gritando a plenos pulmões: Tio! Tio! Tiaaa! E o pai ou a mãe continuam conversando conosco como se aquela criança não estivesse ali. Depois reclamam que o traficante foi mais atencioso com a criança que ele com aquela frase: “Não sei onde eu errei”.
Eu já propus ao Extra supermercados próximo de casa para que colocasse alguém com uma escopeta junto da banca de frutas e, tão logo alguém mordesse um pêssego e largasse o caroço sobre os demais que essa pessoa fosse abatida a tiros. Acharam minha solução radical, tão radical como minha proposta de guincharem os carros que estacionam irregularmente nas vagas para deficientes físicos ou portadores de necessidades especiais e largarem o carro em Jundiaí. Acho que se o camarada não encontrasse o carro dele onde ele deixou “só um minutinho” ou “por ter vaga demais para deficientes” como já ouvi um cretino dizer num telejornal nacional, que essas pessoas procurariam entender a dificuldade de um portador de necessidades especiais tem.
Não vamos nos reportar aos nossos políticos flagrados com a mão na massa que dizem: “Eeeu, eu não, nunca fiz isso ou soube de quem estivesse fazendo. Não sei de nada”.
Ou da célebre frase do presidente Lula: “A Namíbia nem parece um pais africano; limpo...”
Vou para o esporte, especificamente o tênis que aprendi a torcer vendo o Brasil jogar na Davis.
Naqueles tempos – olha eu aí citando a frase – não se aplaudia o erro do jogador, somente o ponto que era bem jogado.
Hoje vejo jogadoras que, além daqueles gritinhos irritantes e, sinceramente, desnecessários, costumam fechar a mão e de punho cerrado comemoram o erro da adversária, muitas vezes olhando nos olhos dela, principalmente se do outro lado da quadra estiver uma das irmãs Willians. E não tentem me convencer que aquela russinha não é racista que vocês não conseguirão.
Já aquele espanhol que arruma a cueca a cada ponto faz diferente: olhar escondido no cenho, ele dispara mesmo alguns palavrões em sua língua nativa.
Vou confidenciar uma coisa, embora eu saiba que você já sabe: educar os filhos faz com que eles consigam sobreviver; eles não morrem não. Acredito até que se tornam pessoas mais felizes, mais prontas para enfrentar aquilo que o pai ou a mãe não faz conta, mas o mundo faz.
Por falar nisso, já beijou sua criança hoje. Vou fazer isso.
Aceitam um cappuccino?

segunda-feira, 26 de maio de 2008

Um ídolo a menos.

Nossas manhãs de domingo foram muito boas nos tempos do Airton Senna.
Ele lutou contra si mesmo, contra o tempo, os limites do carro, com a FIA, a burocracia dos dirigentes e impunha o talento em milésimos de segundo.
Com o triste evento de Ímola, nossas manhãs ficaram sombrias até o surgimento de um garoto maravilhoso vindo de Santa Catarina e despejado nas quadras de Roland Garros quando quase ninguém no país sabia quem era.
Lembro com razoável memória, aquela que meu cérebro permite ter, das manhãs alegres e felizes que voltava a ter quando levantava até mesmo de madrugada para acompanhar as participações dele nos torneios mundo afora.
Eu não ficava chateado nem mesmo nas poucas derrotas pois, ao contrário de muitos profissionais de futebol, sempre via empenho de Guga atrás das vitórias.
E vi principalmente alegria naquilo que ele fazia.
Guga foi o garotão que sempre me lembrou bastante o espírito brasileiro que levou Walt Disney a criar o Zé Carioca, (descontada a circunstância política).
É aquele garoto que todo mundo tem a impressão de ser alguém da família, ou muito amigo da família, tão próximo que tínhamos a sensação de tê-lo como convidado para o almoço ou churrasco.
Incluiu no dia a dia da gente um irmão com paralisia cerebral, admitindo ao mundo que um grande herói poderia sim ter um irmão com necessidades especiais.
Rompeu com uma namorada, modelo, que se aproveitou da fama dele para faturar algum nua.
Hoje sabemos quem ele é, ela é só uma vaga lembrança sem nome.
Afinal de contas, nenhum de nós gosta de ser ludibriado.
Azarou a Serena Willians, mostrando ser fruto de um país onde a grande maioria das pessoal aceita com tranquilidade a convivência multirracial sem traumas.
Correu o mundo, ganhou uma grana e sentiu abandonar o que fazia.
E entrou para a lista de coisas que vou perguntar a Deus quando morrer.
Confesso que foi e ainda é muito difícil para mim aceitar que ELE, Guga, tenha que ter tido esse problema no quadril.
Tanto esportista medíocre se transformou em alguém memorável a custa de aditivos pouco morais e convencionais.
Porque alguém tão bom foi castigado dessa forma e, conseqüentemente nós também?
Vou perguntar isso; ah! se vou.
De toda forma teremos um grande casal de tenistas para nossas referências: Maria Ester e Guga.
Nada mal para um manezinho...

quarta-feira, 16 de abril de 2008

PESSOAS MARAVILHOSAS QUE EU CONHEÇO

Um dia desses encontrei o Paulinho Okihara, velho companheiro do Banco, jantando com sua mulher Leni que fazia aniversário naquele dia.
Lógico que surgiu uma conversa e papos sobre os bons tempos, pois tudo que é passado vai se tornando bons tempos, como se nosso inconsciente nos proibisse de viver nos dias atuais bons tempos.
Paulinho me contou que deixou o Banco e, já quarentão, se formou dentista e agora atende num programa social em Osasco.
Seus olhos brilhavam como brilhavam algumas raras bolinhas de gude que ganhei certa vez de uma tia e que eram de excelente qualidade. Nicavam, estropiavam, estraçalhavam as bolinhas dos adversários sem que ficassem nelas nenhuma marca, não lascavam nem um pedacinho.
Era com esse olhar de menino, com a felicidade de um moleque, ele contava como ajudava pessoas, de maneira alegre como usualmente o Paulinho faz.
Que maravilha ver alguém feliz por fazer pessoas felizes e seus olhos brilharem com isso.
Isso me trouxe a lembrança outro amigo que, vez por outra quando tenho chance de conversar com algum grupo de jovem sobre formação e perspectivas no mundo, eu sempre o cito como exemplo.
É meu amigo Hamilton, que conheço há mais de 20 anos.
Um camarada que sempre vi lutando e passando energia positiva.
Subiu na vida e, Graças a Deus, como subiu. Mas subiu trabalhando, pessoa correta, que botou um norte à sua frente e foi.
Muitas vezes deixou a família em casa para trabalhar pelo Brasil a fora semeando um projeto profissional que, feito de maneira competente, deu frutos. Sei como isso foi difícil.
Pois não é que alguém que tem que lutar no mercado - e nós sabemos o que isso significa - apesar de seu cansaço, das frustrações pertinentes, do desgaste positivo e negativo, ainda encontra tempo para ensinar crianças e tocar violino na Igreja que ele freqüenta.
Acho que ele já pavimentou boa parte do seu caminho para o céu ao fazer que aqueles dedinhos sutis aprendam a se posicionar e tirar os sons maravilhosos que esse instrumento é capaz. Oxalá algum deles se torne um virtuose.
Ele fala sobre o assunto com olhinhos de menino, com felicidade de moleque.
Também o Minelli, que trabalha e trabalha muito, também vai para a Igreja tocar trombone, ou trompete, não me recordo ao certo, mas faz isso pelos outros, pelas pessoas que vão ao culto. E querem saber de uma coisa, não me recordo nesta minha memória que já foi ótima, de ter visto uma única vez a Sandra, sua mulher, que ela não estivesse sorrindo ou com expressão de alegria no rosto. Todos temos problemas, eles certamente os têm, mas ainda assim transmitem sempre energia boa a quem está ao seu lado, energia alegre, que nos deixam felizes com aqueles olhinhos infantis, se me permite Chico Buarque.
Meu amigo Edward Moriarty também é outro exemplo: acredito que, como eu, ele um dia caiu na besteira de falar para a Madre Felicidade:
“-Disponha”.
E ela certamente dispôs.
Eu não me arrependo, ele certamente não se arrepende, mas convenhamos que um rapazinho de Boston, com aquilo que uma boa família americana tem para oferecer, se despoja de tudo e vem ser missionário no Mato Grosso “carregado de malária”, se me permite Salvatore Quasimodo, não pode ser qualificado como alguém comum.
Severo, não deixou de rezar missa um único dia nos mais de sessenta anos de sacerdócio, o que significa mais de 22.000 missas rezadas. Já imaginaram quantas confissões ele não ouviu? Quantas comunhões na distribuiu?
E sabe como ele faz isso?
Alegre, com brincadeiras, com aqueles olhos brilhantes de um garoto que ganhou uma bicicleta de Natal ou aniversário.
E a Madre que teve a coragem, segundo alguns, e a petulância, segundo sua autocrítica, de dizer a Sua Santidade Paulo VI que fundaria um ordem, como ele lhe pedira, mas desde que não fosse para ser contemplativa. Seu carisma seria missionário.
E a Ordem se chama “Mensageiras do Amor Divino”.
Espalham AMOR.
E, por mais absurdo que seja, já houve quem quisesse matar a Madre num atentado a bomba em Angola!
O que me motivou a escrever sobre este assunto hoje foi uma atitude que demonstra o íntimo de alguém que tem uma alma boa e altruísta.
Alguém que sempre trabalhou, sempre amou, sempre encontrou tempo para se dedicar aos seus e a outros seres humanos que pareciam necessitar de algo e esse algo era o amor que ele sempre carrega em seu coração.
Após o jantar, havia somente uma taça de um delicioso pudim de chocolate e ela deixou na minha frente dizendo que não queria sobremesa.
Eu teria sido muito canalha se não tivesse dividido aquele pudim com a Elisa.
Vocês aceitam um cappuccino?

domingo, 24 de fevereiro de 2008

A maior invenção do século XX, em minha opinião, foi a de Santos Dumont.
As distâncias foram reduzidas, a informação chegou mais rápido e propiciou, entre outras coisas, a integração da cultura mundial.
A internet foi a segunda.
A informação hoje está a seu dispor. Qualquer uma. Qualquer coisa.
Costumo brincar com meus amigos que, quando morrer, terei uma lista de perguntas para fazer a Deus.
A primeira vai ser: Você está aí?
Provavelmente a segunda será: Por que a humanidade foi obrigada a conviver com o “espírito de porco”?
O EP está solto por aí para pichar nossos monumentos, para forjar intrigas, espalhar mentiras.
E, infelizmente, a Internet talvez seja o lugar que mais aceita mentiras hoje em dia.
Querem exemplos:
Quem de vocês não recebeu aquele e-mail dizendo que uma pessoa conhecida teve um câncer no estomago por causa de uma Coca-Cola estragada que tomou?
Ou o da Fanta Uva?
Da Fanta Laranja?
Tem ainda aquele do mapa do Brasil nas escolas americanas onde a Amazônia é uma Zona Internacional da ONU sob tutela dos Estados Unidos.
Há algum tempo atrás eu quase não consegui apreciar um chope que tomava com minha mulher no Senzala porque uns alunos da USP que ali se confraternizavam elevaram o tom da conversa por causa dessa mentira.
Os EPs são tão sórdidos que sempre colocam um nome possível e não localizável, (Dr. José Luiz Oliveira, Ama Maria Silva Castro), um telefone que não existe ou um pabx que vai matar a pobre coitada da telefonista no dia seguinte.
Meus Deus!!
A Internet está aí.
Procurem a tal de Un introduction of Geography do tal David Norman que vocês vão se divertir muito, procurar muito e não vão achar nada além de trouxas que repassaram essa babaquice sem tomar os cuidados de preservar seu próprio nome.
Protejam sua reputação!
Não passem adiante o e-mail que diz que deputados acabaram com o décimo – terceiro. Quem criou essa mensagem quis espalhar uma mentira para prejudicar os deputados que estão no final da lista. Aí eu pergunto:
Sinceramente, havia passado por sua cabeça votar um dia naqueles nomes?
Investiguem; esse é o segredo da vida.
Ou a vida vai cobrar seu preço de você.

Arnaldo, 24 de fevereiro de 2008.

segunda-feira, 4 de fevereiro de 2008

O sucesso de cada um...


O grande maestro brasileiro Tom Jobim disse e repetiu mais de uma vez: "Sucesso no Brasil é uma ofensa pessoal".
Eu vou um pouco mais adiante: Ofende muito mais aos intelectuais.
Quem leu um mínimo de Gilberto Freire sabe que desde tempos imemoriais o Brasil se divide entre uns poucos que tinham acesso ao conhecimento e o povo, o populacho, que ria da sua própria desgraça.
Quem não leu também sabe por que provavelmente é vítima dessa diferença.
Continuamos assim.
Uns poucos têm acesso a estudo de qualidade, muitos vindos de tradicionais famílias intelectuais e, via de regra, tem atavicamente preso aos seus corações a arrogância que são melhores que a plebe ignara.
Outros conseguem deixar a pobreza e avançam sobre a classe média, mas seus corações tinham esperança de ir muito além do salário que ganham.
De repente um desses pobres consegue fazer um grande sucesso como jogador de futebol e passa a ganhar rios de dinheiros.
Os comentários contrários, a princípio, são velados, pois como quase todos os brasileiros adoram futebol, as queixas acabam caindo num limbo, e os comentários não vão adiante.
Num momento qualquer esse "ignorante" passa da conta no álcool e bate seu carrão num poste. É o suficiente para que toda a massa intelecta se alvoroce e forneça diversos artigos com críticas à suposta falta critério na distribuição de renda e passe a idéia que esse "jogador de bola" ganhe algo desproporcional.
Agora que qualquer um – incluindo quem aqui escreve – tem um “Blog”, chovem artigos que se transforma em “e-mails” com anexos em “PowerPoint” e músicas bem melodiosas.
E inveja, muita inveja, muito veneno, muita bílis derramada.
Já ouvi de um professor universitário a incrível frase "deveria haver um limite para os salários de jogadores de futebol e cantores de pagode".
"Sim, porque também esses rapazes de vozes moles e anasaladas, calças apertadas e jeitinho de bom moço também ganham um dinheiro desproporcional cantando umas músicas imbecis e com letras e versos extremamente pobres".
É certo que um professor universitário tem que estudar durante muitos anos, não pode parar de ler, trabalha muito e tem um salário que eles mesmos consideram aviltante.
Vários salários de professores que conheço são mesmo baixos.
O motivo de toda essa narrativa acima foi a recepção, por três fontes diferentes, de um texto onde um professor atinge em cheio o compositor Zeca Pagodinho, criticando-o por sua participação na chamada Guerra das Cervejas.
Acredito que todos que estejam lendo conheçam a origem do Zeca Pagodinho.
Ele me remete a um conhecido cliente que eu tinha no Banco que em uma determinada ocasião vendeu no Centro de São Paulo uma rifa de um carro que ficava sobre um caminhão. Esse carro era exposto em todas as ruas no entorno da Praça da República, o papel da rifa tinha uma autorização fictícia da Receita Federal, dava a impressão que tudo era correto.
Meia hora antes do sorteio, o responsável pela rifa deu um dinheiro na mão dele e disse: “Te manda Negão!”. Todos sumiram, ele inclusive, morrendo de medo de ser preso por ter sido cúmplice de um crime que não sabia que acontecia. Passou pelo Mappin na Praça Ramos e comprou um tambor que se transformou no único brinquedo que seu filho ganhou no Natal.
Zeca Pagodinho foi convidado a participar de uma campanha publicitária de uma cervejaria que todos sabem sonegou durante décadas impostos.
Uma cervejaria que concordou em colocar no copo do Zeca cerveja Brahma, (e enganar seus consumidores), por que ele deixou claro que só tomava aquela cerveja.
Uma Cervejaria que quis usar a exata imagem que tem o Zeca Pagodinho por que, certamente, se colocasse a imagem daquele professor que o criticou não teria o mínimo retorno.
O tiro dado por esse senhor atingiu, como de hábito, o lado fragilizado da história. E deixou de fora sonegadores e impostores, enganadores.
Estou sendo muito severo?
Ora, quem pode acreditar em propaganda de Cerveja e Cremes para Cabelos? Ou outros mais?
Em que bar ou praia no mundo você um dia encontrou aquela mulherada pelada, ou rapazes pelados, na propaganda de cerveja.
Você já viu alguma mulher andando com o cabelo esvoaçando em ondas, de um lado para outro, em algum centro de compras, cinema, teatro, corredor de faculdade ou aí no seu trabalho?
A critica desse professor foi para desmoralizar e arrasar com a imagem de um bom artista, de muito sucesso, compositor de canções extremamente populares, no sucesso e nos versos.
Já fizeram isso uma vez com o Gerson, Jogador de futebol que foi vítima de uma campanha publicitária extremamente mal feita, horrorosa o suficiente para nos fazer esquecer que a vitória do Brasil na Copa de 70, quando o país mais uma vez abandonou seu complexo de vira-latas, saiu de sua canhotinha.
Está na hora de fazermos as críticas, aos temas, aos comportamentos, e não às pessoas.
Personalizar uma crítica e atingir uma única pessoa e não atingir os culpados.

02/fevereiro/2008